Por Pe. Matias Soares, Pároco de São José de Mipibu.

10702124_1495954330658154_5452398450659407410_nNa atualidade, um tema que está sendo abordado com ênfase e atenção pelos pensadores sociais é a importância do Cuidado pelo bem do outro. Nas relações humanas e circundantes há uma atenção premente que deve ser dada ao Cuidado com os semelhantes, com a natureza e o mundo, já que existe uma globalização da indiferença (Papa Francisco). Esta é uma constatação séria e preocupante. Há uma perda de consciência de que fazemos parte do conjunto da Criação.

A Era dos indivíduos e, às vezes, das tribos, é um sinal antropológico de que a preocupação global com o futuro da Humanidade, e com tudo o que está em função dela, não é levada muito a sério pelas pessoas que têm responsabilidades numa ordem sistêmica mais ampla.

A política tem que ser pensada como a arte de cuidar. Como ação humana, ela tem que estar em função do outro. Ela é ciência prática. Deste modo, tem que estar em sintonia com a ética social. Na posmodernidade, a concretização da necessidade subjetiva do outro como meio de interação pessoal e comunitária é o Cuidado. O paradigma instrumentalista e pragmático pensa esta possibilidade, antes de tudo, como um Cuidado de si. Esta é uma questão que na Sociedade individualista é vista como uma necessidade de autoafirmação das vontades. O poder é a meta das atitudes humanas e através delas, como força, passa o sentido da política, ou seja, o que era tido como meio de realização da justiça em vista do bem comum, é pensado como meio de conquista do bem individual. Eis um dilema com o qual a política na contemporaneidade não está sabendo se reconciliar.

O discurso político na atual conjuntura é medíocre e imediatista. Promessas são lançadas ao vento com uma única finalidade: todos querem chegar ao poder. Não existe preocupação com o governo para o outro, mas com o governo para si. Os bens são conquistas para pessoas e grupos isolados. A maioria não participa do usufruto da coisa pública. A corrupção é um câncer, que tem na impunidade a sua maior aliada. Os direitos sociais básicos não chegam às periferias sociais da população. Quando oferecidos, vêm como forma institucionalizada de compra de votos e subserviência escravizante. As vontades coletivas tornam-se dependentes de quem estar com o poder e não quer democratizá-lo. Não existe condição democrática séria, em nenhuma realidade política quando há manutenção da miséria pela doação de esmolas. Não é em vão que todos os candidatos à presidência não avançam nas políticas públicas que deveras concedam ao povo liberdade. A vocação da política não pode deixar em segundo plano esta sua finalidade. Existe um problema na política brasileira que é disfarçado pelo ataque aos problemas políticos que existiram no passado. Falta um justo meio. Falta de liberdade e corrupção são duas faces da mesma moeda, que desfiguram a identidade da democracia. Neste aspecto, devemos ser críticos da concepção de política defendida na época hodierna. Pensemos no alto dispêndio de dinheiro público e privado que existe nas campanhas eletivas. E o pior: falta seriedade. A maioria não tem projetos e não apresenta perspectivas diferenciadas. A política é mais de propaganda, que neste caso é usada para camuflar o nível de mediocridade que adjetiva a maioria dos candidatos.

Por fim, uma política do Cuidado é uma reflexão a ser levantada e aprofundada pelos cientistas políticos e sociais para que possamos reabilitá-la à sua peculiaridade. A atenção, que todos os cidadãos e pessoas de boa vontade precisam dar à política, é urgente. Quem não pensa a política como meio autêntico para pensar o bem social, não estará cuidando de si na sua condição de animal político. Assim o seja!

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